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lovely head

Sete minutos. Tinha chegado à escola com 7 minutos de atraso. Imaginou os olhos do Director por detrás das persianas verdes e a frase reprovadora de sempre “Lá vem este caramelo atrasado, outra vez!”. Desceu a rampa de entrada para o átrio principal, sentiu o relógio a abaná-lo, “Despacha-te! Despacha-te!”, e o som de trezentas vozes juvenis, desnorteadas . “Esta pasta só atrapalha e a porra do casaco e esta chuva toda. Foda-se! Estou farto de aturar esta merda”. No átrio principal esperavam-no as gargalhadas fora de tom, os jogos de pingue-pongue e os olhares góticos das adolescentes. “A selva do costume” - pensou. As decorações de Natal penduradas no tecto alto davam ao cenário um aspecto ainda mais surrealista. Anjos e estrelas flutuando sobre suores de histeria e de desejo. Desapareceu do cenário o mais depressa que pôde e encaminhou-se para o segundo pavilhão. O caminho exterior era desabrigado e a chuva não lhe dava tréguas. “Os gajos que projetaram esta merda deviam pensar qu…

unfinished business

Um candeeiro a petróleo, uma luz difusa no reflexo da água, noite escura. A imagem cada vez mais distante, um corpo inerte que se afunda. Acordou em sobressalto num quarto estranho, que depois reconheceu ser o do hotel onde se tinha instalado. Abriu a janela e acendeu um cigarro, observando a cidade a mover-se, sonolenta. Sentia o peso das horas de trabalho, o azedume de quem o recebia, a hipocrisia nos gestos e no trato. Não se deixou abater. Tomou um duche longo, lavando-se da noite inquieta. Barbeou-se com método e vestiu-se com a sobriedade de sempre. Desceu à sala de refeições, onde lhe serviram um bom pequeno-almoço. Observou os hóspedes de outras mesas, todos com o ar leve de quem está de férias, na maioria estrangeiros, com certeza. - Bom dia, Álvaro! O cumprimento apanhou-o quase desprevenido, mas a familiaridade na voz lembrou-o dos três colegas de trabalho que o acompanhavam. - Bom dia, Jorge. - Estavas noutro mundo, homem. Dormiste descansado? A pergunta parecia trazer…